Apresentação em Pinheiros: A trajetória polÃtica de um homem medÃocre
sexta-feira, 24 de abril de 2009No monólogo Mediano, o ator Marco Antônio Pâmio interpreta 16 personagens para contar a história de Zé Carlos, funcionário público que se elege deputado
Sentado atrás de uma mesa, Marco Antônio Pâmio é Zé Carlos, homem medÃocre, carreirista polÃtico. Ao ficar em pé e juntar levemente as mãos, o ator se transforma – agora é a mãe de Zé Carlos, angustiada com a apatia do filho. Um passo ao lado e Pâmio vive o pai, homem orgulhoso por trair a mulher inúmeras vezes. O milagre da multiplicação é fruto do talento do ator, um dos trunfos do espetáculo Mediano, monólogo que estreia hoje no Auditório do Sesc Pinheiros.
Em cena, Pâmio interpreta 16 personagens utilizando apenas um figurino, formado pelo conjunto terno e gravata. Mediano acompanha a trajetória de Zé Carlos, homem com um talento camaleônico para se adaptar a todas as situações. Assim, entre 1977 e 2007, ele se transforma: estudante sem ambição, funcionário em cargo público, assessor de senador, deputado, pastor. Em nenhum momento, porém, Zé Carlos se preocupa com a ética. “Trata-se de um MacunaÃma da classe média brasileira”, comenta o ator.
E, ao longo daqueles 30 anos, a história polÃtica do Brasil serve como pano de fundo, desde a campanha das Diretas Já e a morte de Tancredo Neves, até o impeachment de Fernando Collor e os duplos mandatos presidenciais usufruÃdos tanto por Fernando Henrique Cardoso como por Lula. “Não é uma peça polÃtica, mas sobre a crise de valores que marca nossa sociedade”, observa o autor Otávio Martins, também diretor e ator – construiu sólida carreira com a Cia. do Latão.
Observador atento das mazelas da polÃtica brasileira, Martins desenvolveu um texto polifônico, de rara exigência a quem se aventurasse a encená-lo. “Em 2007, escolhi uma cena que já estava bem definida para o Pâmio ler durante o evento das Satyrianas”, conta. “Ele gostou tanto que me pediu para escrever uma peça completa. Eu já tinha montado uma escaleta de situações e, com Pâmio em mente, foi mais fácil moldar o personagem Zé Carlos.”
O texto praticamente não tem pausas e a solução encontrada por Martins para fazer a transição entre personagens é engenhosa: a fala dita por um personagem é a mesma que outro falaria, fazendo com que a mudança não sofra interrupção. E a identificação acontece graças à interpretação do ator.
A fluência do resultado, no entanto, não revela a dificuldade que marcou os ensaios. Com o texto em mãos, Pâmio, que celebra com Mediano seus 25 anos de carreira, convidou Naum Alves de Souza para a direção. “Trabalhamos juntos em Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro, de Eugene O?Neill, montagem na qual Naum revelou seu cuidado com o texto, o que eu precisava também para Mediano”, lembra o ator.
Naum, que também assina a cenografia e o figurino do espetáculo, junto com Marcello Jordan, percebeu que, para não cair na armadilha de transformar o monólogo em um show amalucado, com constantes trocas de roupa, deveria focar na interpretação. “O texto do Otávio permitiu que eu reorganizasse minha memória polÃtica e percebesse como o descaso com o povo marca a ação polÃtica, independente de quem está no poder”, comenta o encenador.
Assim, ele e Pâmio sugeriram a supressão de alguns personagens polÃticos que, embora relevantes, talvez não fossem facilmente reconhecidos pela plateia – como Mário Andreazza, que foi ministro dos Transportes nos governos militares de Costa e Silva e Médici, e do Interior, no de Figueiredo. Também propuseram a exclusão de determinados fatos históricos, como a morte do deputado Ulysses Guimarães, para facilitar a fluência do espetáculo.
Assim, em um ambiente com móveis atemporais e de linhas austeras, Pâmio interpreta a trajetória de Zé Carlos, homem que tem sucesso por ser medÃocre. “Ele é uma dessas figuras mÃticas do funcionalismo público, que maquiam as coisas e são ligadas a partidos polÃticos”, conta Martins, que soube dosar o personagem, evitando transformá-lo em uma caricatura. As mortes do irmão e da mãe, por exemplo, proporcionam um raro momento de reflexão de Zé Carlos, humanizando uma figura execrável.
Serviço
Mediano. 60 min. 14 anos. Sesc Pinheiros. Auditório (101 lug.).
Rua Paes Leme, 195, telefone 3095-9400.
6.ª, às 21 h; sáb., às 19h30.
De R$ 3 a R$ 12. Até 6/6




